31.12.25

O ULTIMO BRINDE DO ANO

A cidade despertava lentamente naquela manhã de trinta e um de dezembro, envolta em uma atmosfera peculiar que apenas o último dia do ano consegue proporcionar. As ruas, ainda desertas nas primeiras horas, guardavam a promessa de efervescência que se manifestaria ao cair da noite. Helena observava o movimento pela janela de seu apartamento no décimo segundo andar, refletindo sobre os doze meses que chegavam ao fim.

Haviam sido tempos de transformação. A pandemia que assolara o mundo nos anos anteriores deixara marcas indeléveis na sociedade, alterando permanentemente a forma como as pessoas se relacionavam, trabalhavam e celebravam. Aquele seria o primeiro Ano Novo em que Helena se sentia verdadeiramente livre para abraçar desconhecidos, para apertar mãos sem receio, para sorrir sem a barreira física de uma máscara ocultando suas expressões.

Ao longo daquele ano, Helena reconstruíra sua vida profissional. Após perder o emprego em uma empresa multinacional durante os cortes massivos de 2023, dedicara-se a desenvolver seu próprio negócio. O pequeno ateliê de restauração de móveis antigos, que inicialmente fora apenas um hobby praticado na garagem de seus pais, transformara-se em uma empresa próspera. Conquistara clientes exigentes, estabelecera parcerias com antiquários renomados e, mais importante, redescobrira a paixão por criar algo tangível com as próprias mãos.

O telefone vibrou sobre a mesa de centro. Era Rodrigo, seu irmão mais novo, confirmando presença no jantar que ela organizara. Seriam apenas seis pessoas: os pais, Rodrigo e sua noiva Beatriz, e Marcos, o melhor amigo de Helena desde os tempos da universidade. Uma celebração íntima, desprovida da ostentação que caracterizava tantas festas de réveillon, mas repleta de afeto genuíno.

Helena dedicou a tarde aos preparativos. Escolhera um cardápio que mesclava tradições brasileiras com inovações culinárias que aprendera em cursos online durante o isolamento. O peru assado com farofa de castanhas dividiria espaço com uma salada mediterrânea e um risoto de limão siciliano. Para a sobremesa, preparara seu famoso cheesecake de frutas vermelhas, cuja receita aperfeiçoara ao longo de incontáveis tentativas.

Enquanto temperava a carne, Helena rememorou o jantar de Ano Novo do ano anterior. Fora uma ocasião melancólica, marcada pela ausência do avô paterno, falecido em outubro. O patriarca da família sempre fora o responsável pelo brinde à meia-noite, proferindo palavras de sabedoria acumuladas ao longo de oitenta e sete anos de existência. Sua voz grave ecoava na memória de Helena: "Que o próximo ano nos encontre mais sábios, mais compassivos e mais gratos pelas pequenas alegrias cotidianas."

Os convidados começaram a chegar por volta das dezenove horas. Seu pai, sempre pontual, trazia uma garrafa de champanhe francês que guardara especialmente para aquela ocasião. Sua mãe, carregando uma travessa com rabanadas, o doce tradicional que jamais faltava em suas celebrações. Rodrigo e Beatriz chegaram logo em seguida, trazendo flores frescas e a notícia de que haviam finalmente marcado a data do casamento para junho do ano seguinte.

Marcos foi o último a chegar, carregando sua inseparável câmera fotográfica. Fotógrafo profissional, ele jamais deixava de documentar os momentos importantes da vida de seus amigos. "Precisamos registrar esta noite", disse ele, ajustando as lentes. "Um dia, vocês vão querer lembrar exatamente como tudo era neste momento."

O jantar transcorreu em meio a conversas animadas, risadas espontâneas e a satisfação compartilhada de estar reunido com pessoas queridas. Falaram sobre planos futuros, sobre as dificuldades superadas ao longo do ano, sobre sonhos adiados que finalmente pareciam possíveis de realizar. A mãe de Helena emocionou-se ao falar sobre o neto que estava a caminho, fruto da gestação de Beatriz, descoberta havia apenas algumas semanas.

À medida que os ponteiros do relógio aproximavam-se da meia-noite, o grupo reuniu-se na varanda do apartamento. A cidade estendia-se diante deles, um mosaico de luzes cintilantes que pulsavam com a energia coletiva de milhões de pessoas aguardando o mesmo momento de transição.

Helena assumiu espontaneamente o papel que fora do avô. Ergueu sua taça, e todos a imitaram. "Talvez eu não tenha a eloquência do vovô Henrique", começou ela, com a voz embargada pela emoção, "mas quero dizer que este ano me ensinou que a verdadeira riqueza não está nas posses materiais ou nas conquistas profissionais. Está nesta mesa, nestes rostos, nestes abraços. Que o próximo ano nos traga mais momentos assim, mais simplicidade, mais presença genuína."

Os sinos das igrejas próximas começaram a badalar. Os fogos de artifício explodiram no céu, pintando a noite com cores efêmeras e brilhantes. O grupo abraçou-se, compartilhando desejos de saúde, prosperidade e felicidade.

Enquanto contemplava o espetáculo pirotécnico, Helena sentiu uma paz profunda instalar-se em seu coração. Aquele ano que findava fora desafiador, doloroso em alguns momentos, mas também transformador. Ela não era mais a mesma pessoa que doze meses antes brindara temerosa diante de um futuro incerto.

A madrugada avançava, e os convidados permaneciam na varanda, conversando em tons mais baixos, saboreando a temperatura amena da noite de verão. Marcos capturava com sua câmera os sorrisos cansados, os olhares cúmplices, a intimidade daquele grupo que escolhera celebrar não a grandiosidade artificial das festas suntuosas, mas a grandeza autêntica dos vínculos humanos.

Quando finalmente se despediram, já eram quase três horas da manhã. Helena permaneceu acordada mais algum tempo, organizando a cozinha e refletindo sobre tudo o que vivera. Pela janela, observou a cidade gradualmente adormecer, exausta após a celebração coletiva.

Naquele momento, compreendeu que o verdadeiro significado da virada do ano não residia nos rituais supersticiosos ou nas promessas grandiloquentes, mas na oportunidade de pausar, agradecer e renovar o compromisso com aquilo que verdadeiramente importa: amar, criar, conectar-se e viver com propósito.

O primeiro dia do novo ano raiaria em poucas horas, trazendo consigo todas as suas possibilidades inexploradas.
Por Alcí Santos 
FELIZ ANO NOVO

20.12.25

A VIRADA NA CIDADE DA ESPERANÇA

 A pequena cidade de Esperança era conhecida por sua tranquilidade e pelo espírito acolhedor de seus moradores. No entanto, o ano que estava terminando havia sido especialmente difícil. A seca prolongada castigara as plantações, muitas pessoas perderam seus empregos, e o clima de desânimo parecia ter tomado conta de todos.

Na casa de dona Clara, o forno, que normalmente estaria assando biscoitos de fim de ano, permanecia desligado. "Não dá para celebrar quando mal temos o que comer", pensava ela. Já seu vizinho, seu Jorge, que sempre decorava a fachada com luzes coloridas, havia desistido este ano. "Não há motivos para enfeitar uma vida tão apagada", dizia ele com tristeza.

Apesar das dificuldades, algo diferente começou a acontecer quando Marina, uma jovem professora recém-chegada à cidade, decidiu organizar uma reunião na praça central. Ela sabia que, mesmo com os desafios, era possível encontrar razões para sorrir e, quem sabe, mudar o rumo daquele fim de ano.

Na reunião, Marina propôs que todos colaborassem com o que pudessem. "Não precisa ser dinheiro ou coisas materiais. Pode ser tempo, talento, ou até mesmo uma boa história para compartilhar", disse, com um sorriso encorajador. No início, os moradores estavam relutantes. Afinal, como poderiam ajudar, se nem conseguiam resolver os próprios problemas?

Mas aos poucos, a ideia começou a ganhar força. Dona Clara ofereceu as poucas laranjas do seu quintal para fazer suco. Seu Jorge encontrou algumas luzes antigas e decidiu emprestá-las para iluminar a praça. Um grupo de jovens, inspirados pela iniciativa, começou a ensaiar uma peça de teatro improvisada, enquanto outros organizaram um mutirão para limpar os espaços públicos.

O espírito de cooperação foi contagiando a cidade. Alguém doou uma velha árvore de Natal, que foi decorada com enfeites feitos à mão. As crianças usaram papel reciclado para criar estrelas brilhantes, e até o padeiro da cidade, que também enfrentava dificuldades, decidiu preparar pães simples para compartilhar com todos.

Na noite da virada, a praça estava irreconhecível. As luzes piscavam, o cheiro de pão fresco se misturava ao de laranjas, e o som das risadas ecoava no ar. As pessoas, que até então estavam cabisbaixas, agora conversavam e celebravam juntas. Marina, emocionada, observava o resultado de sua iniciativa.

"Este ano foi difícil, mas aprendemos algo valioso: a força da união. Sozinhos, enfrentamos nossas batalhas. Juntos, criamos esperança", disse ela, em um breve discurso.

Na contagem regressiva para o ano novo, todos se abraçaram, agradecendo pela nova energia que havia tomado conta da cidade. Naquele momento, perceberam que a felicidade não estava em ter, mas em compartilhar e construir algo maior, juntos.

A partir daquele dia, a cidade de Esperança nunca mais foi a mesma. O que começou como um ano cheio de dificuldades terminou como o início de uma nova tradição: a celebração da solidariedade e da renovação.

E assim, com corações aquecidos e olhos brilhantes, todos ali provaram que sempre é possível transformar os momentos mais difíceis em histórias felizes.

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO. 

Por Alcí Santos