31.12.22

UM CONTO DE FIM DE ANO

Ela saiu de casa de bem com a vida. Para dizer a verdade sentia-se muito bem neste último dia do ano. Decidiu que prestaria mais atenção em todos os detalhes, em todas as pessoas, em todas as árvores, em todas as coisas. O elevador demorou, mas ela não se alterou. Para que a pressa? Os anos vêm, depois se vão, ficam para trás e novos anos virão. E nós? Bem, nós viveremos alguns poucos anos porque a vida é curtíssima. Na rua foi abordada por um casal que pedia informações sobre uma tal loja de artesanato. Ela não conhecia e ficou desolada por não poder ajudar porque naquela manhã ela estava realmente de bem com a vida, imbuída dos mais nobres sentimentos e disposta a salvar o planeta de qualquer catástrofe se fosse preciso. No supermercado cumprimentou a todos com delicadeza. Viu o preço do espumante Nero, ficou tentada a comprar, mas desistiu, bobagem, já tinha vinhos e espumantes para as Festas. Voltou pra casa ainda cheia de boas intenções e bons propósitos para aquele dia e também para os próximos dias do ano novo que em poucas horas estaria nascendo. Subiu para a sacada. Percebeu que alguns lírios da paz estavam secos e murchos, e foi podá-los. No momento em que podava a flor, foi inundada por gratas lembranças dos antúrios da mãe, a eterna cuidadora e guardiã das plantas e flores, e imediatamente lembrou-se de uma frase do pai que ele sempre dizia se referindo ao casamento com certo escárnio: no início tudo são flores …  Ela sorriu com carinho. Sempre se espantava com a liberdade com que os pensamentos transitavam a bel prazer por sua mente, sempre um puxando outro, sempre uma lembrança puxando outra. E foi precisamente neste momento que ela sentiu uma ligeira pontada dentro do peito, uma sensação estranha que ainda não sabia precisar se era algo físico ou produto de suas emoções, e percebeu que aquele bem estar do início do dia já não estava tão bem assim. Suspirou profundamente, sentiu preguiça, lembrou-se das tarefas que ainda tinha por fazer, lembrou-se de mágoas antigas, porém tentou afastar os maus pensamentos. Saboreou o tutu de feijão que o marido fizera, pois de fato estava maravilhoso, e o gostinho do sal, do bacon e o inalterável bom humor daquele homem salvaram o momento perigoso. Às três da tarde, a tristeza voltou, irrompeu e finalmente imperou vitoriosa. Derrotada, a mulher ficou imaginando como é que era possível ter outra dentro de si tão diferente, obviamente que não apenas uma, havia muitas outras com os mais diversos estados de espíritos e com quem ela era obrigada a conviver diariamente. E comprovou a verdade de que a alegria é extremamente frágil e fugidia, uma porcelana finíssima sempre prestes a quebrar, e lutar contra isso era tão inútil como um exército de fracos gatos pingados a lutar contra legiões de soldados robustos que se infiltravam por todos os flancos. Tentou em vão vencer o momento depressivo. Observe que tudo se passava dentro dela, sem que ninguém percebesse aquele turbilhão de pensamentos e sentimentos contraditórios. Os primeiros fogos começaram a pipocar já de tardezinha. Ela foi para a cozinha preparar o restante da sobremesa. Fazia tudo penosamente arrastando-se como um moribundo que pela última vez se levanta da cama e ainda tenta andar com passos cambaleantes. A mulher da manhã definitivamente não era a mesma mulher da tarde. E ela esperou que a noite, sua hora preferida, lhe trouxesse pelo menos algum sentimento que a consolasse. Então a noite benfazeja caiu serenamente, e seu espírito foi se fortalecendo pouco a pouco. A julgar pela paz que agora descia sobre ela como uma água tépida e reconfortante, todos os demônios do meio-dia estavam de volta para suas cavernas. Havia música ao longe, cheiros de carnes assadas, gritos de crianças brincando no por do sol, gargalhadas sonoras. Embora fosse cedo para comemorar o Ano Novo, ela encheu uma taça de vinho, saboreou o primeiro gole e deu o primeiro sorriso gostoso depois de horas de aflição. Depois riu de si mesma, de seus medos, de seus conflitos. Ergueu a taça para o espelho que refletia sua imagem e desejou para si mesma: Feliz Ano Novo!

POR MISA FERREIRA (conexãoitajuba.com.br)

FELIZ ANO NOVO! ATÉ 2023!!!

 

25.12.22

HOJE É NATAL


O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.

— Ó avô, o que é que trazes?

— Tem calma, tem paciência, que logo te mostro! – aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.

— Anda lá, diz-me só a mim, que eu não digo a mais ninguém!

 — As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia. Não sejas chato!

 — Diz-me, que eu prometo guardar segredo! – insisti.

Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que de lá de dentro saísse qualquer coisa de mágico: um avião que voasse – vrrruuum, vrrruuummm – ou uma coisa assim… capaz de fazer pasmar os meus amigos.

Mas não. Apareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.

— Avô, que prenda me vais oferecer?

— Que prenda me vais dar a mim?

Não lhe respondi. A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.

— E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?

 — Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não, nunca mais te calas. Isso é uma luz para o Natal!

— É de ligar à eletricidade? É de acender? É uma estrela para pôr no presépio? – perguntei, agitado.

— Não. Isto é o Espírito do Natal! – exclamou o meu avô, com mistério na voz.

— Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar, sai um génio que faz tudo o que a gente quer? Ó avô és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!

Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado, quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe:

— Venham para a mesa!

O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos.

O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.

As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:

— Te te te tzzéééé! ! ! – e abriu a porta e as luzes.

Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhoses, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.

A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espetáculo, a lareira soltava línguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.

 — Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não, nunca mais te calas. Isso é uma luz para o Natal!

— É de ligar à eletricidade? É de acender? É uma estrela para pôr no presépio? – perguntei, agitado.

— Não. Isto é o Espírito do Natal! – exclamou o meu avô, com mistério na voz.

— Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar, sai um génio que faz tudo o que a gente quer? Ó avô és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!

Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado, quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe:

— Venham para a mesa!

O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos.

O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.

As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:

— Te te te tzzéééé! ! ! – e abriu a porta e as luzes.

Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhoses, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.

A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espetáculo, a lareira soltava línguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.

 Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e ao canto construiu uma Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro, porque pensava ele que as árvores não se deviam abater.

Disse-me uma vez:

— Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!

O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:

— Que engraçado! Nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia. Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!

Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.

E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocado azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.

Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.

Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções como se fosse um rei.

Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.

Mas não, para mim, aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.

— Ah, já me esquecia… Olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito do Natal, mas trá-lo com

cuidado, não lhe mexas, ouviste? – pediu-me o avô Fernando.

O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.

Subi a correr as escadas que davam para o meu quarto e senti que os bichos carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:

— O que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira ou uma história do meu avô? Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.

E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse: “Diz-me, Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!”

Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:

— Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!

Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:

— Então, vens ou não?!

Desci as escadas a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.

Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal. Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.

Desenrolou, desenrolou, até que… apareceu uma simples vela de cera branca.

— Oooohhhh! Uma vela! – disse de mim para mim, muito desiludido.

Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela e colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:

— Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para mim estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua… está a tua… avó que Deus tenha…

O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.

 O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.

 O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.

 ⁷Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:

— Então, então, pai, hoje é Natal! – falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.

— Vamos à ceia! – disse, por fim, o avô, ainda com a coragem engasgada.

Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.

 O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.

 Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizessem roer de inveja os colegas da rua. O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.

Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre, “cabisbundo” e “meditabaixo”, ria-se, ria-se até mais não. A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:

— Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês? Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lenta mente, ora para um lado, ora para o outro.

— Vês alguma coisa?

— Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!

— Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a saudade do amor, da amizade e da partilha das coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal. Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e se cruzaram comigo ao longo dos anos.

Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida. Queres que te conte?

— Conta, avô, conta!

— Mas olha que é uma história triste! Mas verdadeira!

— Não faz mal! Mesmo assim, conta!

A minha mãe e o meu pai aproximaram-se do sítio onde nós estávamos. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e, com uma voz quente e pausada…

— No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina. Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.

Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:

— Hoje é Natal!

 A pouca distância de minha casa, havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha e o chão de terra batida.

O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado.

Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.

E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos: a Rosa e o Domingos.

Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada foi, um dia, transformada em pássaro negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte de D. Luís para o rio Douro.

Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda e um barqueiro que por ali andava viu-a e, remando rapidamente, retirou-a do rio, ainda com vida.

Da segunda vez que se quis matar estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma rajada empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrodilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito.

Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu duas vezes.

E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.

Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda da lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas “almas caridosas” lhe davam.

Passavam muito mal e, quando se vive assim, nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falar de prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristecer a vida de quem tem pouquinho.

— Natal é um dia como os outros! – dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.

Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, já fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves-galegas.

Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada, por lhe gastarmos da mercearia.

Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.

Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal…

— E se fôssemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos para cearem com a gente? – propôs o meu pai.

A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca da Ti Adelaide Tintureira.

Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.

Sem saber o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da minha cozinha.

Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes, acesos de alegria.

Eram os da Ti Adelaide Tintureira que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.

Quando acabámos de comer e de jogarmos o rapa a pinhões, vim cá fora e, pelo intervalo das folhas de uma laranjeira, vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.

Agora, quando olho para o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.

Quando o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.
 
Por José Vaz, Hoje é Natal, Ed. Gailivro, 2000